22 de abril de 2008

 

Patrimónios lidos



Para ser ‘anexado’ ao processo das obras e acompanhamentos do Largo de S. João de Castelo Branco, publicamos um texto do nosso camarada e Amigo Pedro Salvado, saído no último número do periódico albicastrense “Gazeta do Interior”.

É apenas uma opinião. Que venham muitas mais e que não se a coisa não vá para estéreis ataques pessoais ou desvios do verdadeiro assunto.

Temos evitado alimentar essa cobarde estratégia. Estratégia que se resume ao seguinte. Fala-se ou aponta-se uma questão gravosa para o património, imediatamente há uns ou umas quantas (anónimas qb) que inundam os blogs com comentários contra o poder politico instituído, nomeadamente a obras de rotundas e de jardins de pedra e variantes, e Praça Polis levadas a cabo no mando construtiva do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Sr. Joaquim Morão, personalidade politica local meu velho conhecido, que tive ocasião de cumprimentar na minha cidade, no Congresso de Arqueologia no Museu Tavares Proença, na semana passada. Mais uns comentários, alguns com uns palavrões e tudo, e pronto a coisa é logo vista e transformada num ataque partidário. É um jogo de gente que sabe que nós sabemos que eles e elas não sabem nada de NADA! Os verdadeiros responsáveis pela situação, os incompetentes e as incompetentes que controlam estes assuntos assobiam para o lado ou ficam escondidos na penumbra armando-se em coitadinhos para os respectivos chefes. E em perseguidos e alvos políticos Não queriam mais nada meus caros e caros. A questão não é partidária , a questão é de saberes e de competências científicas, técnicas e porque não éticas… profissionais, profissionais. Apenas isso pois quanto ao resto…

A cidade escondida

A identificação de uma estrutura no subsolo do Largo de S. João, elemento do tecido urbano histórico de Castelo Branco, não pode constituir uma surpresa para ninguém. A materialidade contemporânea da nossa cidade inscreve-se num enraizamento temporalmente profundo, resultado de continuadas e sucessivas transformações, alargamentos e alterações do seu primevo modelado, das suas topografias domésticas, do seu locus genético, das suas expansivas ou regressivas fronteiras. A cidade, memória longa, é feita de muitas imagens e matérias conjugando-se e afirmando-se numa pluralidade estratigráfica variável. Conjunto em equilíbrio e em negociação constante, os múltiplos lugares de memória de uma cidade ocultam-se, envelhecem, esquecem-se.

. O Largo de S. João foi, durante séculos, um dos espaços situados fora das muralhas medievais de sociabilidade mais intensa e sentida. Aí convergia o caminho que conduzia a uma das entradas da então vila para quem vinha do norte e se situava um conjunto de equipamentos determinantes para o fruir do quotidiano económico, social e vivencial da comunidade. O Largo de S. João foi um palco privilegiado de conjugação das componentes do sagrado e do profano que ritmavam o calendário dos gestos das gentes. Sítio de angústias e de esperanças, de crenças e de folias, de ódios e de iconoclastias temporais e espirituais, de ligação entre os domínios públicos e os privados, em S. João localizavam-se, por exemplo, e entre outros, o açougue da Câmara até ao século XIX ou as primeiras sedes do Centro Artístico Albicastrense e do Grémio dos Artistas.

A memória religiosa histórica do largo é ainda hoje afirmada pela presença de um magnífico cruzeiro gótico, monumento nacional desde 1910. A sua qualidade artística continua a causar «estranheza» para alguns, como se a interioridade geográfica fosse, então, traduzida por atraso estilístico. «Estranhezas» de outra natureza haveriam, em 1912, de destruir a humilde capela mandada edificar, em 1715, por iniciativa de D. João de Mendonça, sobrepondo-se a outra que aí existia desde o século de quinhentos. Mas datava já de 1835 a intenção, por parte do poder municipal, de desmantelar o pequeno templo. A dessacralização do largo cumpriu-se, o templo desapareceu e o cruzeiro patrimonializou-se. A fotografia ajudou a construir a memória e a nostalgia. As festas populares perderam o patrono santo, e passaram a ser intituladas “Festas da cidade”. O projecto de 1835 queria estabelecer no local um necessário mercado diário, e em 1912 a ideia foi fazer no largo um jardim, um novo espaço de fruição cívica na cidade. Já na década de oitenta do século XX o largo foi adaptado a parque de estacionamento salvaguardando-se, nestas alterações, os curtos domínios da área do monumento.

Ao abrigo de um projecto de que visa melhorar a qualidade de vida dos habitantes do bairro, o subsolo do Largo foi revolvido e esventrado, para aí ser construído um parque de estacionamento subterrâneo. O Largo de S. João é um «lugar de memória», para utilizarmos uma classificação cara a Pierre Nora, dos mais significativos da cidade. Ora, qualquer lugar de memória assume sempre uma dimensão material e identificável, uma dimensão funcional e uma saliente dimensão simbólica ao reunir passado-presente e futuro. È o caso do Largo de S. João avivado com a “descoberta” desta estrutura associada à circulação hídrica domesticada. Com efeito, nesta área da cidade identificam-se algumas das componentes arquitectónicas mais antigas e originais do que foi a História da utilização e da gestão dos aquíferos locais. Com a construção de poços, de aquedutos, de minas e de sistemas de circulação e de distribuição minimizavam-se as agudas realidades provocadas pelos regimes pluviométrico desta região do interior peninsular caracterizado, quantas vezes, por anos de grande seca. A escassez de água constituiu um problema estrutural da cidade, determinante da sua evolução e crescimento em vários períodos da sua História.

Em S. João há constância documental da existência de vários poços, como um que era propriedade da Mitra, datado de 1772. Perto, situava-se o Poço do Concelho, utilizado até bem entrado o século XX. Os potentes dentes da retro escavadora deverão ter destruído parte da abóbada de uma mina construída em alvenaria e em falsa cúpula, possivelmente datada da segunda metade do século XVIII, deste complexo sistema que percorre o subsolo da cidade. Talvez seja a esta mina que uma escritura datada de 3 de Julho de 1820, publicada pela investigadora Adelaide Salvado, faz referência. Na ocasião, o último Bispo de Castelo Branco avisa uns cidadãos que queriam construir uma casa no Largo de S. João “arrimada” ao muro da quinta do Paço Episcopal que: «E porque a mina que conduz agoa do Poço ao Arco (...) terá este e seus herdeiros obrigados a construir a franquia de qualquer reparo ou concerto ou exame que pelo tempo adiante se faça necessário na dita mina ou aqueducto(...)».

A estrutura de interessa arqueológico, a dois metros de profundidade, agora colocada à vista coloca-nos um alargado conjunto de interrogações. Como é que foi possível a destruição de parte da mesma pelas potentes máquinas ao serviço da empreitada municipal? Ao que sabemos, a aérea tinha sido objecto de pouco profundas escavações arqueológicas, não se tendo encontrada nada de significativo. Da capela setecentista, nem um simples caco ou pedra. Estaremos perante uma curiosa e radical realidade histórica: o apagamento total de todas as matérias que formavam o primitivo monumento cristão? E já agora, quem é que atribui o grau de significância ou de insignificância às realidades arqueológicas entretanto detectadas? É que, neste caso, havia documentação de todo o tipo que poderia ter possibilitado uma outra abordagem ao plano de investigação arqueológica do sítio. Relembremos, apenas, a medição dos bens do concelho de 1818, transcrita no magnífico álbum auto-intitulado de histórico “O Programa Polis em Castelo Branco”, editado em 2003. Aliás, o projecto da transformação do subsolo em parque de estacionamento subterrâneo vem aí anunciado e desenhado.

Tal como a máquina não é o seu instrumento, a arqueologia urbana não descobre coisas. Ela sim, prevê, questiona, conjuga saberes e tempos, evita situações gravosas para o património cultural colectivo, defende e ilumina identidades. Foi gratificante constatar que o ‘achado’ provocou o interesse dos albicastrenses sobre quais serão ainda os ‘segredos’ que o subsolo da cidade ainda guardará. E esta desocultação do património arquitectónico tradicional que esperemos que seja devidamente estudado e musealizado, também fez ressurgir as nossas íntimas e sentidas recordações de infância. Regressaram à memória os tempos dos dias claros de ares lavados que cheiravam a laranjeiras e a alecrim, as brincadeiras nas ruas e nos largos, as histórias de misteriosos subterrâneos, contadas pelas nossas avós que nos faziam vibrar e nos envolviam no sonho e na aventura. Esta terá sido talvez a grande descoberta-lição do Largo de S. João: a recordação do nosso imaginário colectivo.

Escreve Francisco José Viegas: «Não há nada mais frágil para a vida de uma cidade, de qualquer cidade que o confronto com o seu passado. Quando uma cidade sobrevive porque é necessário conservá-la, custe o que custar, é porque se perdeu parte importante da sua memória (…).» Em 1912, a destruição da capela foi considerada como «um melhoramento que beneficiará a cidade, aformoseando-se um dos seus melhores largos».

Apesar de pouco formoso, a “mina-aqueduto” pode conviver com o necessário parque de estacionamento? Pode sim. Afinal quantos é que existem visíveis na progressiva cidade contemporânea?

Pedro Miguel Salvado

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Comments:
Li este texto, como muitos outros do Pedro, com uma especial certeza: assim se constroem criticas verdadeiramente construtivas, argumentadas, esclarecedoras.

Um abraço.
 
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