12 de junho de 2008

 

Para o Processo do «CRIME» 2

Gazeta do Interior

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O planeamento de salvaguarda, preservação e reabilitação do nosso património urbano só é realmente eficaz se existir (além do empenho político-institucional) uma participação activa das população-alvo. Para tal é imperioso que os cidadãos estejam no processo desde o seu início e o acompanhem a todo o tempo. A população precisa de se sentir parte do processo, precisa de ser responsável e responsabilizada pelas opções a tomar, pelo resultado final e pelo acompanhamento da sua implementação. Mas na cidade de Castelo Branco assistimos ao contrário, em que a vontade politica, se sobrepõe à vontade popular e aos interesses do património construído. Assim, temos vindo a assistir à ignorância e desprezo pelo património cultural desta cidade. Importa saber que a preservação do património arquitectónico construído é, antes de mais, uma obrigação da qual, de forma alguma, nos podemos alhear, pois que cada pedra que, teimosamente, resistiu ao tempo, temporais, abandono e indiferença, encerra em si própria a memória e cultura de um povo que teve o privilégio de ao Mundo novos mundos revelar.
 
Batista, meu caro Amigo, companheiro ausente mas sempre presente

Para que não haja qualquer dúvida, escrevo para te dizer que subscrevo, na íntegra, as tuas palavras de crítica e de indignação face a esta incompreensível situação para com o património construído da nossa querida cidade de Castelo Branco. Uma situação que, creio, só corrobora e é apenas e também o reflexo da inexistência daquilo que venho há muitas décadas a propor e a “lutar”: a criação e implantação de um verdadeiro Plano de Salvaguarda e de Reabilitação para a Zona Histórica de Castelo Branco.
Uma zona que apresenta hoje um panorama desolador e que aceleradamente perde alma e aura. Como sabes, esta realidade já tem décadas e pode-se resumir a isto: há uma parte da cidade que morreu e a comunidade ainda não fez o seu respectivo tempo de luto. Um luto, colectivo e participado, debatido e sentido que nos ajude a convencer que ali vida já não há. Há sim pedras, espaços, volumes, memórias estagnadas, paradas, mortas. Vida pouca. É, então o tempo de surgir e de construir o património. Se quisermos… Mas, caro companheiro, o pior é que a cidade histórica significa hoje pouco para a maioria dos cidadãos. Efectivamente, a maioria quando olha o perfil urbano histórico vê a torre do castelo que, por certo, nem é antiga como sabes? Não! O que domina são as antenas dos telemóveis que nos glocalizam e que nos dão outra dimensão e cor ás existências do nosso presente. Da vida de antanho que caracterizava e que enchia o bairro de cheiros e de sons, aquele bairro que foi o teu e o meu ( a minha avó viveu na Rua d’ Ega ),aquele bulício e aquela certeza infantil da continuidade da genética identitária primeva das coisas, já muito pouco ou nada resta. Os tempos, os modos e as gentes são efectivamente outros. Mas o segredo continua lá, bem guardado dos progressos de circunstância. Guardado pelo esguio gato, anunciado pelas pombas alvas, protegido pela sombra da parreira. Lá continua, escondido. Está lá, Silencioso. Não o arrasaram. Quanto ao património ou aos patrimónios, este singular tem que se traduzir em verdadeiros e eficazes plurais com todos e para todos. Esperemos que assim seja.
Olha, ultimamente, tenho-me lembrado muito sabes de quem? Do reverendo Senhor Padre Anacleto Martins que tão bem conhecemos e com ele trabalhamos. Lembras-te Joaquim daquelas manhãs claras , rua acima e rua abaixo, a contemplar portados quinhentistas. Pois bem, recorda lá o que ele escreveu em 1980:
«Temos de verificar, no entanto, que embora o arranque para o seu impressionante desenvolvimento se tenha dado em tempo de relativa sensibilidade aos problemas da arte, não têm conseguido as Câmaras dos últimos anos impedir autênticos «crimes», consentindo em demolições e construções, na zona medieva, sem um mínimo de respeito para com as características do meio.» Sábio, sábio este saudoso Padre.
Quanto à Associação como não posso ser o sócio número um, pois que seja o número três. Afinal três é a conta que Deus fez como diz o nosso Povo. Cumpre a unidade na diversidade, neste caso de opiniões patrimonialistas.
Um abraço, e parabéns, pelo êxito deste teu, nosso, blog às vezes tão cáustico e mal compreendido mas cada vez mais respeitado, lido e…… amaldiçoado. Faz figas Batista

Pedro Miguel Salvado


PS- Para não aborrecer ninguém, não vou colocar o meu curriculum vitae que por acaso até tem algumas coisitas a ver com estas coisas das artes e dos patrimónios. Vale? Não me consta que o Presidente da Câmara da altura tenha excomungado o santo do Senhor Padre Anacleto Martins ou começado a amaldiçoar o seu nome. Mas que eram tempos mais participados, lá isso eram.
 
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